Inocência esquecida
Roberto D´arte
Quem
dera todos os adultos pudessem se (re)avaliar periodicamente sob a
ótica das crianças que foram um dia. Os que usam esta
“técnica” de auto-análise encontram motivos suficientes
para realmente encarar a infância como uma das épocas mais ricas em
termos de aprendizagens essenciais para toda a vida.
Esta é a temática do filme “Duas Vidas”, de 2000,
estrelado por Bruce Willis. Ele conta a história de Rusty, um homem
que, aos 40 anos, é bem sucedido profissional e financeiramente;
capaz de ser bajulado pelos clientes por seu talento peculiar;
cobiçado pelas mulheres; e totalmente intolerante com os
funcionários e consigo mesmo.
Com o cotidiano completamente atolado em seu trabalho de salvar a
imagem de empresários e políticos corruptos, ele vê
inexplicavelmente surgir em sua vida uma pessoa que conhece bem,
mas a quem fez questão de enterrar no passado. Com o peso de quem
encontra na comida uma eterna festa e com a ingenuidade de qualquer
criança de 7 anos, eis que surge o pequeno Rusty para dar de cara
com seu eu do futuro. Neste encontro, a personagem de Willis é
levada não apenas a encarar tudo que sempre quis esquecer, mas a se
lembrar de quem é e do que isto significa.
Em meio a essa trama surgem as situações mais inusitadas, que vão
dando ao filme um desenrolar leve e, muitas vezes, cômico. Quem
fica à espera de uma explicação plausível para a forma como é feito
o salto no tempo termina deixando de lado este aspecto da ficção
para se envolver no principal da história.
Em “Duas Vidas”, Rusty é um adulto arrogante como
muitos que encontramos por aí. Quando percebe que toda a sua
racionalidade está começando a ruir diante de um fato sem qualquer
explicação, ele procura a sua analista com o mesmo desdém de
sempre, em busca apenas de algum remédio concreto que possa fazer
sumir uma aparição tão absurda. Mas não adianta; lá está ele,
gordinho, bonachão e de uma meiguice contagiante – um menino
que se esforça para reconhecer a si mesmo 33 anos mais tarde. São
duas mesmas vidas completamente antagônicas, incapazes de se
misturar.
Às vezes achamos que o universo adulto é por si só um antídoto para
todas as inseguranças e fraquezas que possamos um dia ter sentido
ou vivenciado na infância. No entanto, quando nos deparamos com
estes mesmos sentimentos, com intensidade redobrada, percebemos o
quanto necessitamos voltar no tempo para entender as causas e
tentar resolvê-las tardiamente. Este é um dos princípios das
terapias baseadas na psicanálise ou em outras vertentes menos
convencionais.
É até bem possível que durante o filme as pessoas se permitam
trazer de volta as crianças que foram, com suas alegrias e medos,
com seus olhos puros para enxergar os mundos de fora e de dentro. A
verdade é que nestas lembranças há sempre alguém um tanto diferente
do que somos hoje, mas com um quê familiar, capaz de apontar alguns
caminhos de sol que ficaram perdidos lá atrás e que podem até ser
retomados.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 30 de outubro de 2009)