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O samba autêntico de Aline Calixto  escrito em sexta 03 julho 2009 15:27

O samba autêntico de Aline Calixto

Roberto D´arte

 

Mesmo sendo um assumido fã do rock e do folk – enquanto trilha sonora mais presente ao longo da minha vida, tenho profunda admiração pelos ritmos-base da autêntica Música Popular Brasileira. O samba é um deles!

Tive o privilégio de ouvir na infância os melhores nomes desse estilo musical, que, a meu ver, foi relegado a segundo plano nas duas últimas décadas, desde que a indústria fonográfica, as rádios e os programas de auditório da TV elegeram como uma de suas prioridades o chamado “pagode romântico”. Aos 9, 10 anos, na década de 1970, esperava com ansiedade que as rádios (e o “Som da Cidade”, na minha Boa Nova-BA) tocassem os sucessos de Clara Nunes, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, João Nogueira, Beth Carvalho, Alcione, Roberto Ribeiro... Sem falar naqueles que não eram necessariamente sambistas, mas que sempre tinham ótimos sambas em seus discos, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Toquinho e Vinícius, Elis Regina, João Bosco, Gonzaguinha, Simone. Infelizmente, a Velha Guarda (Cartola, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Candeia, Monarco, Nelson Sargento, entre outros) só vim conhecer melhor bem mais tarde, já na fase adulta.

A década de 90 e o início deste novo milênio não foram frutíferos para o samba autêntico. Mais uma vez precisei contar com nomes da MPB de estilos variados, a exemplo de Marisa Monte e Maria Rita, para ouvir regravações e novas composições do samba que contagia, que emociona. Lá pelos idos de 2003, em Viçosa-MG, tive o prazer de conhecer um nome da novíssima geração que compõe e canta com a alma de sambista. Estou me referindo a Aline Calixto, que lançou seu primeiro CD no dia 25 de junho último (com prévia em Viçosa, um dia antes, numa animada roda de samba no Bar Leão).

O disco, que leva seu nome, é bom do início ao fim! Já ouvi muitas pessoas que a viram no palco tecerem comparações com Clara Nunes. Sei que os artistas não gostam deste tipo de paralelo, pois é como se tirasse a sua autenticidade, mas conheço Aline o bastante para saber que ela é super fã da grande sambista mineira e se sente lisonjeada com a justa comparação. Sua energia no palco, o repertório e mesmo a voz são uma espécie de resgate do “furacão” Clara Nunes, que nos deixou muito cedo, no auge de uma carreira brilhante.

Embora já esteja há algum tempo na estrada (tendo faturado, inclusive, alguns festivais), a carioca de nascimento e mineira de criação Aline Calixto só agora começa a ter o destaque que merece. Em maio ela marcou presença com muita personalidade no programa Som Brasil, da Globo, em homenagem a Martinho da Vila. O sucesso de seus shows em casas noturnas do Rio e de Belo Horizonte no ano passado despertaram a atenção da Warner Music, que apostou no seu primeiro disco.

Das treze canções do CD, três têm a assinatura de Aline (“Cara de Jiló”, parceria com Juliano Buteco, “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, com Makely Ka, e “Você ou Eu”, com Mestre Jonas). Para os que quiserem encontrar os traços “claranuneanos”, recomendo ouvir “Oxossi” (de Roque Ferreira), “Rainha das Águas” (de Douglas Couto e Rodrigo Santiago) e “Tudo que Sou” (de Toninho Geraes e Toninho Nascimento). A pitada “Velha Guarda” pode ser conferida nas ótimas “Retrato da Desilusão” (de Mauro Diniz e Monarco) e “O Teu Amor Sou Eu” (de Rogê e Arlindo Cruz). As demais faixas são tão boas quanto as que mencionei. Na verdade, eu teria dificuldade em dizer qual a melhor candidata a carro-chefe como música de trabalho.

A área de Geografia perdeu uma grande professora e pesquisadora (a conheci de perto enquanto colega no ofício de lecionar). Aline, que se formou na UFV (Universidade Federal de Viçosa) e alavancou seu trabalho como cantora e compositora em Viçosa, fez a escolha certa ao abraçar a música. Tomara que o Brasil e o mundo reconheçam isto muito em breve!

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 3 de julho de 2009)

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O pior dos animais  escrito em sexta 19 junho 2009 18:18

Thor e Bial são seres especiais, bem superiores a muitos humanos

 

O pior dos animais

Roberto D´arte

 

“Quanto mais conheço o homem mais eu gosto do meu cão”. Esta frase, extraída da música “O homem e o cão”, de autoria do compositor mineiro Ataulfo Alves, em parceria com Arthur Vargas Jr., resume bem a sensação que sempre tenho diante das centenas de notícias diárias envolvendo a brutalidade humana.

Com mais de 6 bilhões de exemplares espalhados pelos quatro cantos do planeta, o ser humano é o único predador que mata e destrói ao bel prazer ou por pura perversidade. Leitores assíduos da National Geographic ou aficionados pelo Discovery Channel, talvez inconformados com uma afirmação tão sem embasamento científico, podem até apontar exemplos de outros animais que façam o mesmo. No entanto, é difícil para qualquer um negar que estamos no topo da cadeia predatória de todas as espécies animais e vegetais, desencadeando, inclusive, um processo perigoso de autodestruição.

São tantos os exemplos de agressões e matanças perversas proporcionadas pelo ser humano ao longo da sua própria evolução que seria preciso uma vida inteira de leituras de obras sobre o tema para alguém tomar conhecimento de tudo neste sentido. Há quinze dias, no Tribuna Livre (jornal de Viçosa-MG em que sou redator e articulista), um texto enviado por Neiva Aparecida Pereira Lopes – publicado com o título “Crônica da Vida Real” – aguçou a minha convicção de que, felizmente, temos também em nossa espécie o contraponto da destruição.

A dor que ela narra ter sentido no dia em que testemunhou, em Viçosa, o atropelamento proposital de carneirinhos por dois ocupantes de um “carrão preto de vidro fumê” me confirmou a tese de que temos salvação. A sua estupefação diante daquele crime foi tanta que ela sentiu necessidade de desabafar com as pessoas que passavam pelo local, chegando ao ponto de buscar alento em um homem que, logo depois, apresentou-se como um ladrão. O rapaz roubou a sua bolsa, mas, diante do seu pedido para devolver os documentos, deixou seu pertence pendurado em uma árvore um pouco mais à frente, como chegou a prometer que faria.

“Ele roubou um relógio, meu celular e dois maços de cigarros. Ele não encostou na minha carteira, que continha documentos, cartões de crédito, de banco e 40 reais em dinheiro. Este ladrão foi muito mais humano que aquelas pessoas do carro; ele me roubou com dó. Ele é um pobre coitado, fruto da miséria humana, das desigualdades sociais, que tanto conheço, mas este pode ser recuperado; demonstrou que, apesar de ladrão, ele é humano”. Esta foi a moral da história que a leitora-cronista enviou por e-mail ao Tribuna, pedindo para que ela fosse compartilhada com os milhares de leitores do jornal.

Ao longo de minha vida, desde a infância, tive o privilégio de conviver com cães, gatos, aves e tartarugas de estimação. Posso afirmar que tê-los por perto é ter a oportunidade de aprender muito sobre afeição gratuita, baseada em ações e reações instintivas. Thor e Bial – os dois gatos que eu e minha esposa criamos – são seres tão puros e afetuosos que às vezes me sinto incapaz de ter a mesma nobreza deles.

Já está mais do que comprovado que um animal de estimação pode até mesmo ajudar uma pessoa a se recuperar de enfermidades graves. O motivo? Muito simples: eles se entregam aos seus amigos humanos com tanta verdade, com tanto afeto que o amor resultante desta troca age como uma espécie de remédio, de terapia. Os bichinhos não deixam dúvidas sobre possíveis segundas intenções em suas atitudes, tão comuns nas relações humanas.

 (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 19 de junho de 2009)

 

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Partida intempestiva  escrito em sexta 12 junho 2009 20:02

Partida intempestiva

Roberto D’arte

A morte é sempre um momento muito difícil para qualquer um, principalmente para nós, ocidentais, que nunca aprendemos a lidar com ela de maneira mais serena. Por mais que esta seja a nossa única certeza, ninguém está suficientemente preparado para encarar a partida desta vida.

A situação fica ainda mais complicada quando a morte chega em forma de tragédias, como o recente acidente com o avião da Air France ou os que envolveram a Gol e a TAM, também no Brasil. Além da dor dos parentes dos mortos e da comoção geral, fica sempre a grande interrogação sobre o exato momento da passagem simultânea de tantos espíritos para o outro lado.

Apesar de educado na religião Católica, que acredita na imortalidade da alma e na sua partida sem volta, aterroriza-me profundamente a simples hipótese da extrema dor sentida pelos que deixaram esta vida de forma tão violenta. Penso que nas mortes resultantes de acidentes aéreos ou automobilísticos cheguem do lado de lá espíritos fragmentados, que sequer têm tempo de entender o que aconteceu durante sua travessia.

Conforta-me imaginar que, diante de tamanha fratura, possa haver no pós-morte alguma espécie de pronto-socorro espiritual, onde espíritos preparados sejam designados para acompanhar os que chegam de forma tão abrupta. Como acredito na continuidade das jornadas individuais, ainda que em planos diferentes, esta tese me traz alento para lidar com o vazio que deixam os que partem.

Para muitos talvez seja besteira ou perda de tempo pensar sobre tais assuntos. No entanto, vida e morte seguem em fios tão tênues que o rompimento do primeiro pode significar um trilhar sobre o segundo. No mais, tomando como referência a tese dos que imaginam que tudo termina aqui, pouco ou quase nada faz sentido nesta existência.

O filósofo grego Platão (século 4 a.C.), embora não tivesse o foco de seu pensamento pautado em religião, defendia que o ser humano é uma alma encarnada. Ressaltava que, antes da sua encarnação, esta alma existia unida aos modelos primordiais, às ideias do Verdadeiro, do Bem e do Belo. Por ter se separado deles, encarnando, sente-se atormentada pelo desejo de voltar a suas origens.

Tanto na visão filosófica de Platão quanto nas bases do Cristianismo e de outras religiões, a morte é um renascimento. Passada a temporada da experiência da encarnação (frágil e fugidia) a vida se expande num plano mais elástico e elevado (provavelmente também mais consistente). Neste caso, a sequência deve ser a mesma para os que vão em consequência de doenças ou para os que morrem de forma intempestiva.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 12 de junho de 2009)

 

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Amor é sacrifício?  escrito em sexta 29 maio 2009 21:56

Amor é sacrifício?

Roberto D´arte

 

Há filmes que são tão bons, que marcam tanto, que precisam ser assistidos pelo menos uma segunda vez. Mesmo não estando na categoria dos cinéfilos, sou aficionado pela linguagem cinematográfica e me sinto bastante instigado diante de suas obras mais marcantes.

É o caso de “As Pontes de Madison”, filme de 1995, dirigido pelo veterano ator Clint Eastwood, que também atua no papel principal, ao lado da fantástica Meryl Streep. Mais de uma década depois de tê-lo assistido pude revê-lo no último fim de semana, quase com a mesma sensação de ineditismo da primeira vez. Lembrava-me de poucas cenas (felizmente as do começo), o que fez desta releitura um prazer em dobro.

A história de amor desse drama poderia fazer dele um lugar comum, mas não faz. Simplesmente porque nada na história é grandiloquente ou chocante. Talvez o possível incômodo para muitos venha do fato da personagem de Meryl Streep (Francesca Johnson) – uma dona-de-casa absolutamente correta e devota à família – se permitir vivenciar uma paixão avassaladora em plena meia idade.

Na verdade, o incômodo mesmo só aparece devido ao evidente caso de traição, que vem à tona num momento da história de Francesca em que nada mais parecia abalar a sua vidinha previsível numa propriedade rural do condado de Madison, no estado de Iowa-EUA. A chegada do experiente fotógrafo da National Geographic – Robert Kincaid (vivido por Eastwood) – é um divisor de águas na vida daquela mulher, que é obrigada a tomar, em apenas quatro dias, a decisão mais difícil que alguém como ela poderia tomar.

Este texto é um convite não apenas a quem gosta de bons filmes, mas a todos os que se vêem diante de escolhas difíceis ao longo da vida, principalmente em se tratando de casamento ou mesmo de namoro. Em “As Pontes de Madison” a paixão intensa e fugidia vivida por Francesca termina sendo um “tapa-na-cara” de seus próprios filhos. Eles, que eram adolescentes quando tudo aconteceu, são convidados a repensar suas próprias relações, assim como a olhar de um jeito mais profundo para aquela que sempre viram apenas como uma recatada rainha-do-lar.

Na ficção e no mundo real há inúmeras histórias de renúncias individuais em favor da pátria, da família e de outras instituições sociais. Quantos não foram ou são julgados e condenados simplesmente por buscar a própria felicidade! Quantos não morrem amargurados ou culpados por ter escolhido os caminhos tortuosos dos sacrifícios que os outros esperam, em vez da simples liberdade a que todo ser humano deveria ter para deliberar sobre a própria existência!

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 29 de maio de 2009)

 

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As benesses da anticivilização  escrito em quinta 21 maio 2009 19:12

 

As benesses da anticivilização

Roberto D´arte

 

Na visão do filósofo inglês Thomaz Hobbes, o ser humano não nasce com o instinto de sociabilidade. Por isto, sem a existência de uma sociedade política organizada, sua tendência é lutar pela própria sobrevivência com todas as armas. Por este prisma, o outro é sempre um obstáculo aos interesses individuais e a discórdia, uma forma de resolver os impasses.

Esse pensador empirista nascido no século 16 conseguiu influenciar governos e Constituições exatamente por defender o Estado como o único meio de socializar os instintos primitivos da humanidade. Sua frase célebre – “o homem é o lobo do homem” – é até hoje debatida com grande atualidade, principalmente porque ninguém ainda conseguiu refutá-la, por mais que haja bons exemplos contrários.

Revendo recentemente o ótimo filme “A Vila”, do diretor indiano M. Night Shyamalan, é possível entender os motivos que levaram os fundadores do vilarejo fictício a criar um mundo à parte para as futuras gerações. O filme, de 2004, é inserido no gênero “suspense” por conta de sua história central em torno de uma lenda sobre criaturas aterradoras que vivem na floresta. Estas são o empecilho para que os moradores cultivem o desejo de deixar o único lugar que conhecem.

Longe de quaisquer tecnologias do mundo exterior, as pessoas da vila descrita por Shyamalan (o mesmo diretor de “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” e “Sinais”) vivem em regime comunitário, numa agricultura de subsistência e sem o dinheiro como referência. Uma tentativa de fuga da fatídica constatação de Hobbes a partir de uma organização social teoricamente sob controle (no caso do filme, pelo Conselho de Ansiãos). A condição aí para não ser o lobo do outro é manter a comunidade num certo espírito de inocência e com medo do que ela supõe ser mais forte (as criaturas da floresta).

No século 21, mesmo os vilarejos recônditos e sem qualquer tecnologia ainda existentes em algumas partes do planeta não conseguem fugir, por exemplo, da intromissão dos satélites das nações desenvolvidas. Também já ficou para trás a época em que morar na zona rural era sinônimo de tranquilidade. Além dos bandidos que invadem sítios e fazendas para roubar, em muitos deles o cotidiano de misérias e tragédias bate à porteira através da TV e até da internet.

Trilhamos um caminho sem volta no que diz respeito ao megacontato entre as pessoas. Ainda que de forma virtual e à distância, nunca foi tão fácil para o homem ser o lobo do homem. Quanto ao Estado, que Thomaz Hobbes via como o único capaz de controlar a barbárie, há muito se comporta como um lobo contratado para tomar conta do galinheiro. Nesta metáfora popular cabem perfeitamente os políticos e servidores corruptos, os administradores desonestos e burocratas, os carreiristas sedentos por riqueza e poder.

Por mais otimista que alguém seja, torna-se cada vez mais difícil negar a afirmação feita pelo filósofo inglês há mais de três séculos. O mesmo vale para quem tenta encontrar as possíveis veredas que ainda possam levar à anticivilização e suas benesses. Para não ser tão fatalista deixo para um conterrâneo – o cantor e compositor Moraes Moreira – a árdua tarefa de apontar alguma luz no fim do túnel. No refrão da música “Pão e Poesia” ele ensina: “felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha é uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar”.  

  (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 21 de maio de 2009)

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