Cuidar dos animais é cuidar das crianças

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         Cuidar dos animais é cuidar das crianças
                                   Roberto D’arte

           No domingo passado entidades ligadas à causa dos animais de todo o Brasil deram ao país uma verdadeira lição de organização e cidadania. Basicamente através da internet, elas e seus voluntários organizaram a manifestação “Crueldade Nunca Mais”, que aconteceu simultaneamente em mais de 150 cidades, inclusive no exterior, cobrando punições mais efetivas para os que praticam maus tratos contra os animais.
             Viçosa, em Minas gerais, também marcou presença através da SOVIPA – Sociedade Viçosense de Proteção aos Animais, com a organização e coordenação de Ankara Nana Romeiro, que faz parte do grupo de mais de cem voluntários da entidade. Na condição de simpatizante dessa nobre causa e também de voluntário da SOVIPA, acompanhei a passeata, que saiu das Quatro Pilastras da UFV e seguiu até a Praça Silviano Brandão, no Centro. Em vários momentos me emocionei ao ver pessoas defenderem seres que são acolhidos em muitos lares como filhos, mas que também vivem por aí no mais completo abandono. Eles estavam lá, representando estes dois grupos: cães bem cuidados, levados por seus donos, e os ainda sem lar, que estão no Canil Municipal para adoção. Como se soubessem que ali estavam seus defensores, também compareceram cães que ainda perambulam pelas ruas, comendo lixo e bebendo água empoçada.
           Um fato curioso ocorrido durante a passeata foi presenciado por Cláudia Gomes de Castro – voluntária da SOVIPA que segurava uma faixa logo na frente. Ela contou que no meio da manifestação uma mulher gritou para os participantes: "façam isso pelos seus filhos!". A sua fala, infelizmente, ainda representa a visão de muitas pessoas sobre a dedicação aos animais. É como se fosse uma causa social menor. O que é certo é que os problemas não são excludentes; ao contrário, eles coexistem e uma sociedade inteligente tenta resolvê-los com a mesma dedicação. Animais abandonados, crianças abandonadas, idosos abandonados, sem-teto, sem-terra, sem-emprego, saúde pública ruim, educação pública de má qualidade... Todos são problemas que devem ser resolvidos; nenhuma nação que se queira civilizada, desenvolvida, pode vê-los sem fazer nada.
           Há, no entanto, uma diferença básica entre uma criança abandonada e um animal abandonado: a primeira, tão inocente quanto um cão e um gato, tem a seu favor (pelo menos em tese) toda a estrutura montada pelo Estado: creches, escolas, hospitais, transporte, políticas públicas de saúde, bolsa-família e todo o respaldo que a nossa legislação prevê. Além disso, tem normalmente a atenção de diversas entidades do terceiro setor. Viçosa, por exemplo, conta com mais de duas dezenas delas. E os animais abandonados, quem olha por eles? Quem está disposto a recolhê-los das ruas para oferecer cuidados, um lar?
           Luciana Macedo, minha esposa e também voluntária da SOVIPA, há pouco tempo foi repreendida na rua por uma senhora apenas por estar alimentando um cão abandonado. A mulher disparou: “tanta criança passando fome e as pessoas alimentando um cachorro". A sua resposta encerrou o assunto: “A senhora tira a criança passando fome da rua? Porque eu tiro o cachorro".
         Na passeata do último domingo várias crianças acompanhavam os seus pais, algumas delas com seus animais de estimação. Foi o caso de Layla, de 8 anos, filha do empresário Robson Rodrigues e da educadora Edilene Gomes. Recentemente eles adotaram uma cadelinha numa das feiras de adoção da SOVIPA. Tenho certeza que Robson e Edilene, ao incentivarem o amor de Layla pelos animais, estão fazendo muito por ela; estão ensinando a lição mais básica que alguém pode aprender: o ser humano precisa ter a grandeza de também cuidar do mundo em que vive.

         (publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 26 de janeiro de 2012)

quinta 26 janeiro 2012 17:08


Ano Novo, metas e lista

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Ano Novo, metas e listas

Roberto D’arte

    Se os calendários não tivessem sido inventados dificilmente a humanidade teria se organizado nos moldes que conhecemos. Abrir e fechar ciclos são formas simbólicas de lidarmos com o cotidiano concreto e, principalmente, com a nossa sede de abstração. Afinal, o futuro é um tempo abstrato; somente os planos para ele podem ser vivenciados no presente.

       Nesse processo a intuição pode ser um importante instrumento no jogo da percepção dos caminhos a serem seguidos. O complemento vem no planejamento racional de cada passo a ser dado, que aí tem o mesmo sentido de se caminhar com o auxílio de uma bússola.

      O fim do ano se aproxima e é hora de redirecionar os pensamentos e energias pessoais para a próxima temporada de 365 dias – tempo mais do que suficiente para dar prosseguimento ao que já se começou ou mesmo iniciar algo novo. É muito comum durante a euforia das comemorações do dia 31 de dezembro as pessoas prometerem a si mesmas mil e uma realizações, além de mudanças radicais de vida. Normalmente as promessas terminam como as garrafas de champanhe que as motivaram, o que faz deste ritual algo repetitivo, infértil e frustrante. É como aqueles devaneios que muitos gostam de ter ao se imaginarem donos de milhões de reais ganhos na Mega Sena. Neste caso, todos os problemas são resolvidos em cinco minutos ou até baixar a poeira da realidade.

       De maneira absolutamente real, é possível organizar metas para o ano seguinte. Para isso é necessário que elas não façam parte daquele rol de desejos impossíveis de ser alcançados nesse prazo e que também não sejam levantadas em número excessivo – o que apenas serve para causar dispersão. Este planejamento pode abarcar tanto os aspectos profissionais e materiais quanto os emocionais e espirituais; de preferência mesclando um pouco de cada para que haja um equilíbrio de ações e de reflexões sobre elas.

      Para quem deseja testar em 2012 a eficácia desse tipo de programa de metas, o princípio é o mesmo daquela listinha de compras do supermercado. Ela serve para lembrar o que realmente deve ser comprado e, ao contrário, para que não se encha o carrinho com o dispensável.

      O programa deve seguir seis passos básicos: 1- registrar num diário ou em algo que esteja sempre à mão a meta a ser alcançada (isso deve ficar bastante definido para que seja interiorizado); 2- o que é preciso fazer para alcançá-la? (etapa de levantamento dos possíveis caminhos a serem seguidos); 3- quem poderá ajudar a alcançá-la? (pessoas ou outros meios, como instituições especializadas, livros, filmes, que venham a somar a isso); 4- quem poderá prejudicá-la? (estar atento para o fato de que suas metas podem despertar nas pessoas sentimentos de inveja e ou rivalidade, que devem ser neutralizados); 5- sua meta favorece a alguém? (isso pode torná-la mais ampla, nobre e envolvente); e 6- sua meta prejudica alguém? (uma espécie de revisão da meta em sua essência).

      É importante ressaltar que este tipo de plano somente é válido se for levado a sério e, na medida do possível, sistematizado no decorrer de sua execução. As várias pessoas que têm o hábito de realizá-lo todos os anos chegam mesmo a fazer outro após seis meses por já terem alcançado o que listaram. Pode parecer um ritual a mais entre tantos que existem por aí, mas seu princípio é bastante simples e racional. Isto não desmerece qualquer busca religiosa e/ou esotérica neste sentido, que podem ser instrumentos interessantes no fortalecimento interior para a jornada do ano novo.

 (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 29 de dezembro de 2011)

sexta 30 dezembro 2011 22:17


Treinamento para Papai Noel

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Treinamento para Papai Noel

Roberto D’arte

     A proximidade do Natal trouxe à tona a lembrança de um caso verídico que sempre rende para mim boas risadas. Há alguns anos em Belo Horizonte a afilhada de uma amiga, à época com pouco mais de 2 anos, estava passeando com sua mãe em um shopping e lá viu Papai Noel sentado em sua cadeira, tirando fotos com as crianças. A garotinha, então, toda alvoroçada, insistiu para registrar seu encontro com o Bom Velhinho, a quem vinha aguardando o ano inteiro. Já no colo dele, com a mãe ao lado, foi travado o seguinte diálogo:

Papai Noel: Olá, mocinha, como é seu nome?

Garotinha: Carol.

Papai Noel: Que nome bonito! Você já mandou cartinha para o Papai Noel pedindo seu presente?

Garotinha: Já.

Papai Noel: E você tem mais irmãos?

Garotinha: Tenho, sim; eles são gêmeos.

Papai Noel: Que legal!!! E como se chamam?

Garotinha: João e Pedro.

Papai Noel: João e Pedro? Que legal!!! O meu é Antônio.

Garotinha: ??????

Mãe: ??????

         Esse episódio mostra que a figura do Bom Velhinho tem ficado cada vez mais banalizada. Na minha infância ele existiu, mas era quase um mito, no mesmo rol dos anjos, das fadas, dos duendes. Acreditávamos que ele aparecia para deixar nossos presentes; chegávamos mesmo a tentar surpreendê-lo ficando acordados madrugada afora. Mas no final sempre vencia o sono profundo para, na manhã do dia seguinte, dar lugar à expressão de felicidade pelos presentes deixados ao lado dos nossos sapatos. Pelo menos a minha geração e outras que vieram antes curtiram esse Papai Noel bem mais imaginário do que real.

    É fato que a situação mudou muito, principalmente nas duas últimas décadas. Na verdade, o próprio “Natal comercial” também mudou. Ele começa cada vez mais cedo para satisfazer os anseios do comércio, e em cada esquina é possível encontrar os mais diversos modelos do Bom Velhinho. Diga-se de passagem, cada um mais terrível do que o outro. É o chamado Papai Noel de aluguel, que está no mesmo time dos que se beneficiam com os empregos temporários de fim de ano. Quase nenhum tem a cara e o jeitão do Bonachão-do-Pólo-Norte, que, mesmo vindo de outra cultura, criou raízes também no Brasil.

       Mesmo para mentes tão imaginativas como têm as crianças é difícil não perder a magia natalina depois de encontrar um Papai Noel como aquele de Belo Horizonte. Talvez Carol tenha prosseguido por mais algum tempo acreditando nele. Tomara que tenha conseguido, pois ainda pior do que isso é ver a desilusão no rosto dos milhões de meninos e meninas de origem humilde que, desde muito cedo, já sabem que o Velho Noel é, na verdade, Antônios, Pedros, Geraldos, Severinos, pessoas absolutamente comuns, sem destaque social, sem dinheiro no bolso e à espera de alguma alma caridosa que possa fazer a vez de Papai Noel para seus filhos.

 (publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 22 de dezembro de 2011)

quinta 22 dezembro 2011 18:11


Os covardes e os que fazem a diferença

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Os covardes e os que fazem a diferença

Roberto D’arte

          Na edição da semana passada o Tribuna Livre publicou uma reportagem sobre um gato que foi brutalmente espancado por um homem no distrito de Silvestre. A matéria menciona ainda outra recente brutalidade cometida contra uma cadelinha de rua, que foi morta a pancadas no Bairro Vale do Sol por um ser que se diz humano. Este último crime, segundo disseram testemunhas, foi praticado na frente de duas crianças, que choravam, desesperadas, pedindo clemência para o animalzinho indefeso.

          A cadelinha, que se chamava Xereta, era alimentada por moradores do bairro. Os que cuidavam dela disseram se tratar e de um animal dócil e afável. O mesmo é dito de Sidy, o gato que foi espancado, mas que sobreviveu e se recupera graças ao amor de sua dona, que pediu ajuda à SOVIPA – Sociedade Viçosense de Proteção aos Animais, em seu perfil no Facebook. Nos dois casos, houve grande comoção de centenas de pessoas que frequentam esta rede social da internet.

          Estas barbaridades contra animais indefesos aconteceram em Viçosa e foram denunciadas. Outras tantas passam despercebidas na própria cidade e acontecem no restante do Brasil e no mundo inteiro. Histórias como a do filhote de cachorro que, na semana passada, foi enterrado vivo em Novo Horizonte-SP, e assim ficou por 12 horas até ser resgatado por um integrante da associação de proteção aos animais da cidade. Segundo apurou a Polícia, foi o próprio dono quem praticou o crime. O sobrevivente passa bem e ganhou um nome à altura do seu feito: Titã. Na última segunda-feira, em Guarulhos-SP, um homem amarrou um cachorro de rua no para-choque do seu carro e o arrastou por mais de 500 metros. A sua justificativa para a Polícia: o cão perturbava os moradores do bairro. Felizmente, ele resistiu e foi devidamente medicado, enquanto o monstro foi preso.

          Precisaria de um jornal inteiro só para citar as histórias divulgadas pela mídia de agressões e maus tratos aos animais. Elas são testemunhas da podridão de uma parcela significativa da humanidade. A mesma que mata, que rouba, que trapaceia, que usa a corrupção para subir na vida, que espalha intrigas para gerar discórdias, que semeia guerras, que permite a fome e a sede de milhões de pessoas.

          Tenho plena consciência de que há dois tipos de evolução em se tratando do ser humano: a individual e a coletiva. Uma está atrelada à outra, mas não acontece no mesmo ritmo. Quando se diz, por exemplo, que uma nação é mais desenvolvida do que a outra, há aí muito mais do que um componente econômico. É uma constatação de que seus habitantes conseguiram evoluir coletivamente mais do que os de outras nações. Isso explica, entre outras constatações, porque um país tem um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) maior; porque tem uma taxa de analfabetismo bem menor; porque possui leis e políticas públicas mais eficazes...

          A covardia de alguém que agride seu semelhante, que maltrata seres inocentes como crianças e animais é a prova inconteste de que a evolução humana é realmente desigual. Também é prova da mesma tese o seu outro extremo. Há inúmeros seres humanos que fazem a diferença no mundo; que fazem do altruísmo uma missão de vida; que doam o que têm em prol do bem estar coletivo; que se doam para ver a própria humanidade trilhar no rumo certo.

          Repetindo aqui o que postei recentemente no Facebook logo depois de ver a foto de oito cadelinhas que foram resgatadas numa casa abandonada no Bairro Novo Silvestre, desde que me tornei voluntário da SOVIPA tenho testemunhado histórias belíssimas de pessoas abnegadas, que não medem tempo, esforço e recursos materiais para dar um lar a seres inocentes que foram abandonados à própria sorte e que normalmente não têm ninguém por eles. Elas vêm alimentando o meu otimismo neste tempo de tanto egocentrismo. A estas pessoas, dedico este texto e a minha gratidão.

 (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 15 de dezembro de 2011)

quinta 15 dezembro 2011 12:10


Continuidade

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Continuidade

Roberto D’arte

         Certa vez, numa conversa de mesa-de-bar, eu e alguns amigos debatíamos um dos assuntos mais intrigantes e reticentes da existência humana: haverá vida após a morte? Obviamente, neste tipo de assunto sempre surgem as versões clássicas das religiões mais conhecidas, além da também clássica visão de existencialistas e ateus.

            Num determinado momento alguém me perguntou se eu não considerava a hipótese de não haver nada depois desta existência. Minha resposta (que continua a mesma) foi a mais simples possível: por que considerar uma hipótese que tem o nada como princípio e fim? Se o espírito não puder seguir adiante também não haverá quem possa tripudiar com os que acreditam nesta opção, apelando para algo do tipo “não disse que não havia nada?”.

            No mais, acreditar que tudo começa e termina aqui tem, no mínimo, um efeito psicológico bastante negativo. Até porque há muitos momentos em que, racionalmente, não faz qualquer sentido ser protagonista ou coadjuvante do enredo criado e vivido pela humanidade.

           A minha crença neste e na maioria dos temas é totalmente espiritualista. Sempre que penso no título que a banda portuguesa Madredeus deu para uma de suas músicas instrumentais – “Os pássaros quando morrem caem no Céu” – imagino qual deve ser o destino dos espíritos dos pássaros. Ainda que muitas religiões acreditem que espírito seja algo inerente apenas aos seres humanos, intuo que Deus tenha enchido de espírito toda a Sua criação.

          Talvez tenhamos mesmo um espírito bem mais complexo do que o de um pássaro ou o de qualquer outro ser vivo. No entanto, independentemente disso, é muito provável que haja entre todos os espíritos algo em comum: a imortalidade e a possibilidade de evolução.

          Como a maioria dos ocidentais, não fui preparado para perder nada no plano físico. O que dizer, então, de uma perda com conotação mais espiritual, inexplicável? Alguns povos orientais, por mais que tenham medo de morrer como qualquer ocidental, lidam culturalmente com a morte de forma muito mais leve. Há entre eles até os que encontram motivos para festejar quando um ente querido se vai. Acredita-se que seu espírito esteja partindo para um estágio de existência bem melhor. Por esta visão, o espírito é como um pássaro que cai no Céu quando morre. Seu voo é muito mais alto e sublime se comparado aos voos possíveis e limitados desta vida.

          Nosso pouco entendimento da morte nos faz erroneamente percebê-la de maneira sombria, mórbida. Sempre evitamos falar no assunto e quase sempre definhamos depois da partida de alguém que gostamos. Não se trata de defender a tese de que devemos abafar os sentimentos de tristeza e vazio por uma perda assim. Afinal, a saudade é um dos efeitos do amor. A questão é abrir a mente para compreender a sua dimensão.

          Acredito que seja perda de tempo alimentarmos a ideia de que não haverá algo mais após a morte. Muito mais produtivo acreditarmos que voaremos, sim, para outro plano; que os espíritos dos que nos deixam continuam vivos e poderão ser reencontrados mais tarde. Esta perspectiva de continuidade tem a força de delinear melhor as escolhas que fazemos ao longo da caminhada do lado de cá.  

 (publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 01 de dezembro de 2011)

sexta 09 dezembro 2011 14:46


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